O Dia da Consciência Negra marca a luta da população negra no Brasil. A data, que dá protagonismo a Zumbi dos Palmares no combate pela abolição da escravidão, é uma oportunidade para dar voz e resgatar nossa história, destacando a importância do povo africano para a formação social, econômica, cultural e política do país.

Inserindo nossos alunos neste contexto, e com o intuito de reforçar os lemas de Madre Paula e de São José de Calasanz na educação das crianças, a Professora de Matemática Michele Maciel trouxe a dica do jogo Ntxuva para conhecermos um pouco mais a respeito.

Já ouviu falar no Ntxuva?

Homens jogam Ntxuva em Moçambique.

Crédito: Instagran/@star_angel_miso

Conhecido como o xadrez africano, este jogo ensina matemática de forma lúdica.

O Ntxuva é um jogo tradicional da África subsahariana com origem mais provável no Egito. É uma variante do mancala, família de jogos de tabuleiro com várias concavidades e com o mesmo princípio geral de distribuição e conexão de peças. A partir do Nilo, os mancalas teriam se expandido progressivamente para o restante do continente africano e para o Oriente. “O Ntxuva está presente no dia a dia dos moçambicanos. Hoje, em Moçambique, o Ntxuva faz parte das modalidades do Festival Nacional dos Jogos Tradicionais. É um esforço do governo local para resgatar a nossa cultura”, conta o Professor Alberto Chirinda, de Maputo, Moçambique, que vive no Brasil desde meados de 1990.

Além de bem cultural, o jogo é considerado parte da etnomatemática*, pois compõe o conhecimento matemático desenvolvido por povos não-europeus, aplicado na solução de suas realidades.

Entre as habilidades cognitivas que o Ntxuva desperta estão a orientação espacial, cálculo aritmético e construção de estratégias. “O Ntxuva trabalha alternativas e conexões. Cada casa contendo peças é uma alternativa de saída, uma opção. Cada opção pode ter uma ou várias conexões que levam ao objetivo final: eliminar as peças do adversário e retirá-los do tabuleiro” explica Alberto.

Estas opções e conexões exigem cálculos simples, mas ágeis e volumosos. “Esse volume de cálculos é que estimula o raciocínio aritmético, lógico e estratégico, além da memória das crianças”.

*A etnomatemática propõe ensinar matemática levando em consideração outras culturas que também produzirem e produzem conhecimento, de variadas maneiras, mas que são frequentemente apagadas das narrativas da sociedade e da escola.

Por que usar jogos para ensinar matemática?

Além do engajamento das crianças e jovens com a atividade, jogos como o Ntxuva substituem exercícios cansativos e repetitivos. Ao visualizar, na prática, o retorno imediato de suas hipóteses e cálculos, as crianças deparam-se com conflitos que devem ser resolvidos entre elas mesmas, com autonomia e visando o bem comum.

Outro benefício do uso dos jogos em sala de aula é que estes fornecem dados para o educador conhecer a estrutura mental dos seus alunos em uma situação de vivência prática. “O papel do professor é importante, pois é ele que circula entre os grupos, instruindo sobre as regras do jogo, jogando com as crianças, apresentando-lhes desafios e também oferecendo subsídios para suas decisões.”

O esforço de Alberto Chirinda para a popularização no Brasil da etnomatemática já rende frutos. Seu trabalho com o xadrez africano chegou ao conhecimento da Secretaria de Educação do Paraná, que adquiriu quase 100 tabuleiros Ntxuva para distribuir nas escolas do interior do estado. “Também fui convidado a dar uma oficina de Ntxuva para professores do Paraná no âmbito da etnomatemática e da implantação da Lei 10639”, conta.

Para o educador, ações como estas revelam a força e importância desta legislação que reconhece o legado dos africanos. “Houve um despertar para a contribuição dos negros africanos nas várias áreas da nação brasileira. Hoje, vejo professores entusiasmados com a temática africana e que a cada dia descobrem a história contada pelos próprios africanos sobre antigos impérios, comidas típicas, música e escritores renomados”, comemora.

 

Fonte: Centro de Referências em Educação Integral. Ntxuva, o xadrez africano, ensina matemática de forma lúdica
Disponível em: https://educacaointegral.org.br/reportagens/ntxuva-o-xadrez-africano-ensina-matematica-de-forma-ludica/